Caso Aline – A pergunta que continua sem resposta


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Matéria publicada em 25/05/2009

Texto e fotos: Laura Godoy

 

É impossível para quem mora em Ouro Preto passar na porta da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, próxima a praça Tiradentes, e não se fazer uma pergunta que há oito anos permanece sem resposta: afinal, quem assassinou Aline?

 
A estudante veio para a cidade se divertir na famosa Festa do Doze, em outubro de 2001. Mas o passeio teve um fim trágico. Aline Soares Silveira, de 18 anos, foi encontrada morta no cemitério da Igreja. O corpo estava desnudo e tinha 17 perfurações, além de marcas feitas com algum objeto pontiagudo. Ela foi estrangulada e espancada e, depois de morta, o corpo foi posicionado como uma cruz.
 
Desde então, o Ministério Público afirma que Aline foi vítima de um ritual macabro, associado ao Role Playing Game – RPG - e ao uso de drogas e álcool. Foram indiciados a prima de Aline, Camila Dolabella e os, na época, estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto, Edson Poloni Aguiar, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes, todos hoje com 28 anos, moradores da extinta República Sonata.
 
Nesta segunda-feira, dia 25 de abril de 2009, a expectativa era que a pergunta feita no primeiro parágrafo desta reportagem fosse respondida ou ao menos esclarecida. Afinal, estava marcado para às 12h o julgamento que decidiria sobre o caso.
 
Os 25 jurados, todos moradores de Ouro Preto, convocados pela juiza Lúcia de Fátima Magalhães Albuquerque Silva, da Vara Criminal e da Infância e Juventude, compareceram. Também vieram cerca de 40 amigos e parentes da vítima da Manhumirim, cidade natal de Aline, uniformizados com camisetas que pediam justiça e paz. A promotora Luiza Helena Trócilo Fonseca, responsável pelas denúncias, também chegou cedo ao Fórum e falou sobre as suas expectativas: “Temos um inquérito muito completo e desde 2004 trabalho incessantemente nesse caso. A minha expectativa é que os acusados peguem  30 anos de prisão. Posso afirmar, com toda certeza, que esse crime aconteceu por influência do RPG e de outros rituais macabros”.
 
Mas até o horário marcado para início do julgamento, a expectativa no Fórum era grande. Isso por causa do nova Lei Penal, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva  no primeiro semestre de 2008, que permite que o júri ocorra mesmo com a ausência dos réus. Porém, os advogados devem estar presentes. O que não aconteceu em Ouro Preto.
 
A sessão foi aberta com uma hora de atraso e, ao contrário do esperado, os quatro réus compareceram, mas apenas Camila Dolabella estava acompanhada pelo advogado, Rogério Del Corsi. Como a juíza indeferiu o pedido de desmembramento do júri (ou seja, cada um seria julgado separadamente), o julgamento foi adiado para o dia 1 de julho deste ano.
 
Del Corsi alegou também a inclusão de cinco testemunhas inéditas e disse que novos documentos foram incluídos no caso pela promotora “na calada da noite”. Luiza Helena retrucou a acusação e disse que o Ministério Público tem trabalhado seriamente para conseguir encerrar o caso com justiça.
 
Como o julgamento só pode ser adiado uma vez, a juíza nomeou dois advogados da Defensoria Pública para representar os réus, caso eles não compareçam.
 
Famílias
 
Pela primeira vez, as famílias da vítima e dos acusados, além dos próprios, se encontraram em um mesmo lugar. Apesar da mãe de Aline, a professora aposentada Maria José Silveira Soares ter esperado em uma sala reservada às testemunhas, após o encerramento dos trabalhos ela acabou cruzando com os acusados. Entre eles, sua sobrinha, Camila, com quem ela não tem contato desde a morte da filha. “Não posso ficar no mesmo lugar em que esses monstros estão”, disse ela em voz alta. “Saio daqui hoje triste porque a justiça falhou, mais uma vez. Eles usaram essa jogada para adiar o julgamento. Mas eu não desisto e voltarei . Fico triste e choro também por causa do meu irmão, pai da Camila. Queria apenas voltar a dormir, porque tem oito anos que isso é impossível”.  
 
As amigas de Aline que também estavam no local, mas que preferiram não se identificar, disseram que “infelizmente eram também amigas de Camila, que sempre foi uma pessoa estranha”.
 
Do outro lado, o sofrimento também era visível. Uma senhora simples de pé acompanhava apreensiva a sessão, quando uma jovem advogada entrou e perguntou: “Quem são os réus?” Ela respondeu: “Os réus eu não sei, mas as vítimas são aqueles quatro ali”, apontando para Cassiano, Edson, Camila e Maicon, que ela revelou então ser seu filho. “Estou revoltada com a falta de justiça, com o que fizeram com esses meninos. Mas acredito que tudo vai acabar bem. Nós temos a consciência tranqüila. Tanto que depois que saiu de Ouro Preto meu filho voltou a estudar música e vai se tornar um grande maestro”. A noiva do estudante também estava presente e contou que desde que conheceu Maicon ele revelou o ocorrido, segundo ela, com muita sinceridade. “Tenho certeza que ele é inocente”. As duas pediram para não serem identificadas.
 
Já o pai de Edson, o escrivão aposentado Edson Poloni, falou que “estava como Abraão, entregando seu filho para ser imolado e espero que a justiça devolva-o”, declarou, contando ainda que, apesar de tudo, Edson conseguiu se formar em Comunicação.
 
Confusão
 
Quando tudo já parecia ter terminado, um tumulto aconteceu na porta do Fórum de Ouro Preto. No momento em que Cassiano Garcia e Édson Poloni deixavam o local, uma multidão enfurecida ,aos gritos de “assassinos”, batia e cuspia no carro que levava os dois. O irmão mais novo de Aline, Daniel Silveira Soares, de 26 anos, foi além: chutou a porta do carro e acabou quebrando o retrovisor. Ele foi detido pela polícia e levado para a Delegacia de Ouro Preto, sendo solto logo em seguida.
 
“Meu irmão é uma pessoa muito calma, mas não conseguimos segura-lo neste momento de raiva pela injustiça”, disse o irmão mais velho de Aline, Carlos Eduardo Silveira Soares, de 30 anos. Quando Camila e Maicon deixaram o Fórum, a reação da população também foi exaltada.
 
Sem resposta
 

Enquanto o dia 1 de julho não chega, vamos continuar passando na porta da Igreja de Nossa Senhora das Mercês com a mesma dúvida que paira desde aquela noite de outubro: o que realmente aconteceu aqui?

Veja ensaio fotográfico por Laura Godoy

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