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Quaresma
Angela Xavier
angelaxbr@yahoo.com.br


À meia noite de terça feira, terminam as festas momescas e começa a Quaresma. Nenhum som se ouvia a partir daquele momento. Não se ouviam músicas, não se falava alto, não se davam risadas. Nem os maquinistas apitavam o trem nesse dia. Silêncio absoluto. Tinha início um tempo de quarenta dias de silêncio, recato, sacrifício e jejum. Na Quarta-feira de Cinzas, ninguém varria a casa. Havia o Ofício de Trevas à noite. Era uma representação da prisão de Cristo pelos soldados romanos. Durante a cerimônia, as pessoas sapateavam na igreja fazendo um barulho enorme, jogavam coisas no chão, tudo para simular a violência do fato. Muito se falava sobre seres horrendos a vagar pelas ruas da cidade à noite e ninguém saía com medo do que poderia encontrar. Quem circulava pelas ruas depois de 22h era abordado por policiais, revistado e inquirido sobre as razões de estar na rua àquela hora. Costume da época.

 

Era costume nesse período cobrir os santinhos da casa com uns pedaços de pano roxo. Eram paninhos confeccionados no tamanho certo de cada santo, de cada quadro. Na Quinta-feira Santa, pela manhã, as mulheres trabalhavam muito. Tinham que deixar a casa toda lavada e arrumada, pronto o jantar da Quinta e o almoço da Sexta-feira Santa. Isso porque, a partir das 15h, não se podia fazer nada, nem mesmo gritar, brigar ou dar uma coça nos meninos arteiros. Essa espécie de jejum de ações durava até às 15h do sábado de Aleluia. Os meninos ficavam com medo do sábado de Aleluia, porque então sabiam que iam apanhar muito pelo tanto que haviam aprontado naqueles dias de luto. D. Cota, uma parteira muito conhecida na cidade, costumava ameaçar os filhos levados, dizendo:

 

- Olha, olha! Deixa estourar as Aleluias que eu vou mostrar pra vocês!

 

Depois da aleluia, os meninos já sabiam: o “coro” era certo.

 

Procissões eram realizadas de madrugada, às sextas-feiras, onde os penitentes se supliciavam, fazendo seus gemidos ecoarem nas noites escuras. Tochas acesas iluminavam as ruas, havia batida de bastões nas calçadas, correntes eram arrastadas e os participantes usavam roupas medievais compridas e esvoaçantes. Impressionavam e provocavam medo gerando muitas lendas que são contadas até hoje em Ouro Preto.

 

Era perigoso não apenas sair às ruas, mas simplesmente assomar à janela, altas horas da noite. Mas tem gente curiosa, que gosta de bisbilhotar a vida alheia e prefere correr os riscos. Assim era certa senhora, moradora de uma casa defronte a Igreja de São Francisco de Assis. Nada lhe escapava. Sabia de tudo e da vida de todos. Depois saía comentando e apimentando os fatos.

 

Certa noite, ela ouviu barulho, vindo da rua, semelhante aos passos de uma multidão. Os passos pareciam vir da frente de sua casa. Escutou gemidos, orações sussurradas e arrastar de correntes. Olhou pela treliça e viu o que parecia ser uma procissão. Não resistiu. A curiosidade venceu o medo. Abriu a janela de supetão e, para seu espanto, constatou que, em plena madrugada, passava uma procissão muito concorrida, onde todas as pessoas levavam uma vela acesa na mão e as mulheres usavam véus brancos ou pretos na cabeça. Alguns homens traziam pesos no pescoço, outros iam com os pés descalços. A mulher ficou intrigada, chamou uma pessoa que acompanhava a procissão e perguntou o que era aquilo. A mulher respondeu:

 

- É a procissão das almas. Dizendo isso, entregou sua vela acesa para a mulher segurar. Ela ficou muda de espanto ao constatar que a outra não tinha rosto. Ficou paralisada na janela até de manhã quando foi acordada por seus familiares. Foi encontrada debruçada na janela, segurando um osso de canela humana nas mãos!

 

Outros contam que foi alguém da procissão que bateu na porta de sua casa. Ao atender, uma senhora pediu à dona da casa para guardar um pacote. Ela guardou. Até o dia seguinte a mulher não apareceu reclamando o pacote. A dona da casa, então, não resistiu e abriu a caixa verificando, horrorizada, que lá dentro estava uma caveira.

 

A procissão das almas é muito tradicional e em muitos locais ela ainda acontece. É realizada de madrugada. Os acompanhantes vão cantando e, por vezes, ouvem-se vozes femininas atrás do cortejo. Ninguém pode olhar para trás para não perturbar a oração das almas. Elas estão cumprindo sua pena e não devem ser interrompidas por nada.

 

Uma vez, uma senhora, ao ouvir passar a procissão, abriu a janela para ver e reconheceu um senhor no meio do cortejo. Era o Seu Geraldo da D. Mariquinha! Mas tinha um detalhe: ele já havia morrido há uns cinco anos. Ela ficou mais assustada ainda quando viu, de vela acesa na mão, a própria D. Mariquinha. Aquilo estava muito esquisito! Ficou com muito medo, mas, mesmo assim, resolveu acompanhar a procissão. Colocou um casaco nas costas e saiu de chinelo mesmo. No meio da multidão ela viu muitas outras pessoas conhecidas, gente que conheceu ainda criança, amigos de seus pais e todos eles, estranhamente, já haviam morrido.

 

O cortejo seguiu pela Ladeira de Santa Efigênia e, lá no alto, dirigiu-se ao cemitério. Já estavam chegando ao portão quando, de repente, a mulher bateu com a cabeça na parede da sala de sua casa e acordou. A cena da procissão era muito real e ela ficou ali meio atordoada sem saber o que havia acontecido de verdade.

 

Tudo poderia ter sido apenas um sonho não fosse por um detalhe: a mulher só tinha um chinelo no pé. O outro foi encontrado em frente ao portão do cemitério da Igreja de Santa Efigênia.

 

Há uma história muito interessante acontecida no Catete, região de Ouro Preto. Há muitos anos, um grupo de pessoas, desrespeitando a Sexta-feira da Paixão, organizou um baile. A sanfona tocava e os pares dançavam alegremente no pátio de chão batido do terreiro do festeiro. Tudo parecia correr bem quando, de repente, o chão começou a afundar, afundar, afundar e muitos dos casais que dançavam foram engolidos. Formou-se um buraco enorme que está lá até hoje para quem quiser ver. E a cada ano ele cresce mais um pouco na época das chuvas. É nisso que dá!

 

*Angela Xavier é historiadora, autora do livro "Tesouros, Fantasmas e Lendas de Ouro Preto"


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