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Carnaval
Angela Xavier
angelaxbr@yahoo.com.br
O carnaval sempre foi muito animado em Ouro Preto mas, no início do século XX, era uma festa com sabor muito especial.
Nesse evento, desfilavam blocos tradicionais como o Zé Pereira dos Lacaios, criado pelos funcionários do Palácio dos Governadores. Era o mais antigo deles e tinha sede no Antônio Dias. No Pilar havia o Clube dos Batutas e o Banjo de Prata. Destes ainda sobrevivem o Zé Pereira e o Banjo de Prata apesar de um pouco descaracterizados no seu quadro de figurantes originais. Mas, sabemos que é com grande esforço que eles se mantém através desses anos todos.
O início do carnaval acontecia no sábado à noite quando os cavaleiros do Zé Pereira saíam a galope pelas ruas da cidade. Os cavalos eram mansos e iam enfeitados com serpentina. As ferraduras tirando fogo das pedras. À frente ia um cavaleiro com o estandarte do bloco e, mais atrás, quatro outros cavaleiros tocando corneta. Na Praça Tiradentes, as autoridades entregavam a eles as chaves da cidade. Era o início oficial da folia.
Os cavaleiros galopavam de volta para seu bairro, de onde saíam em desfile puxando seu bloco. Subiam novamente as ladeiras, desta vez abrindo o belo cortejo. Atrás dos cavaleiros vinham os cariás, capetinhas pulando como loucos, liderados por um capetão que trazia uma lança nas mãos e ia riscando as pedras do calçamento arrancando faíscas. Depois vinham duas pessoas, uma de cada lado, carregando quatro lanternas multicoloridas, presas num bastão, feitas com papel celofane e contendo velas acesas dentro. Depois desfilavam, para delírio geral, os grandes bonecos chamados catitões: o Zé Pereira, elegante com seu fraque, o chapéu preto e gravata, um bigode preto em cima da boca entreaberta cheia de dentes; a baiana vestida de rendas brancas, com um turbante à Carmem Miranda na cabeça e brincos enormes de argola; e um boi que ia preso por suspensórios na altura da cintura de um homem. Trazia a cara do boi à frente com uma língua vermelhinha dependurada. O homem que sustinha o boi usava um chapéu e um pano amarrado abaixo dos olhos, escondendo sua identidade. Trazia nas mãos um chicote que levantava e batia no chão, enquanto ele evoluía em meio aos cariás. O povo corria entre excitado e temeroso. As crianças corriam próximas aos cariás e catitões, fascinadas e assustadas porque sabiam que iriam levar algumas chicotadas, chifradas ou empurrões, mas exatamente nesse risco estava o fascínio. Corriam tanto que , depois de tudo acabado, chegavam a casa molhadas de suor e com os olhos brilhantes.
Atrás desse grupo esfuziante, vinha uma orquestra tocada pelas pessoas mais respeitadas do bairro, num toque compassado e único. Vestiam fraques, gravata borboleta e cartola na cabeça. Havia um toque para andar pelas ruas planas e um toque mais suave para as ladeiras. Havia também corneteiros e figurantes, todos fantasiados. Tinham baianas, arlequins e pierrôs vestindo fantasias fabricadas por eles mesmos e pelas costureiras que trabalhavam como ninguém nessa época. Esse bloco era esperado com grande ansiedade e emoção.
O Clube dos Batutas foi fundado em 1930 por um ouro-pretano muito animado, chamado Juvenal Santos. Saiu até 1938 quando acabou por dificuldades financeiras. Seu último desfile, nesse ano, aconteceu a pedidos. O tema das fantasias foi “Ás de espada”. A roupa era rosa de cetim e, no peito, um Ás de espada. A sede era num casarão existente na Rua da Glória em frente à capela do Bonfim. O Sr. Juvenal ia ao Rio de Janeiro e trazia fardos de panos para confeccionar as fantasias e os carros alegóricos. Muitos amigos ajudavam.
Eles organizavam um belo desfile de cordão carnavalesco, com fantasias criativas, a cada ano era escolhido um tema para os carros alegóricos. Todos iam dançando e cantando pelas ruas da cidade, levando seu estoque de confetes, serpentinas e a lança perfume. Eles ganharam vários prêmios. O Sr Juvenal, fantasiado de D. João V com uma vara de metal na mão, abria o desfile. Todos saíam em ordem, dançando e cantando da sede do Clube em direção ao Largo da Alegria. Na porta do Clube dos Batutas, o seu estandarte verde, preto e branco ficava hasteado. Esse clube sempre ganhava o troféu de campeão. Suas taças, e eram muitas, ficaram no porão da sede e se perderam.
Após a mudança da capital para Belo Horizonte, que aconteceu em 1897, Bias Fortes, então governador do estado, disse que viria a Ouro Preto caçar onça, tão deserta ficaria a cidade.
Essas palavras desagradaram profundamente aos moradores da cidade e Juvenal Santos aproveitou essa fala para criar uma alegoria de carnaval. O bloco sairia composto por caçadores e uma onça enorme com a cara do Bias Fortes.
O governador foi informado sobre o tema do bloco e enviou um telegrama, proibindo terminantemente que ele saísse às ruas. Naqueles tempos os governadores eram bastante autoritários.
Juvenal Santos não se intimidou, saiu com o bloco mesmo assim. Quando chegou ao Largo da Alegria, a polícia estava lá para impedir que o bloco desfilasse. Então começou a maior pancadaria. Os moradores, apavorados com tal violência, chamaram o padre João, vigário do Pilar, que veio imediatamente com um crucifixo nas mãos. A interferência do padre surtiu efeito. Ele argumentou ser tudo aquilo apenas uma brincadeira, dispersando o bloco e a polícia. Mas o bloco não desfilou!
O carnaval era interessante por seus clubes mas também por seus cordões e seus mascarados. Entre os vários cordões destacava-se o das “danças de negros”, cujo chefe era um tal Zé dos Santos, um homem gordo que fazia coisas incríveis no carnaval.
Mais ou menos nos anos 20, houve uma célebre caçada representada por esse cordão, criticando a mudança da capital para Belo Horizonte. Nessa representação havia a caricatura dos principais adeptos da mudança e o gordo representava uma enorme onça.
Não havia financiamento para os cordões. O comércio local fornecia panos e outras coisas necessárias. No final vinham os carros alegóricos com cavalos enormes, princesas e rainhas, todas muito bem vestidas. Conjuntos musicais acompanhavam os cordões tocando marchinhas. Havia vários outros instrumentos além das caixas de percussão.Todos os participantes cantavam alto e desfilavam dançando pelas ruas até a Rua de São José onde era o centro das festividades. As ruas estreitas da cidade se transformavam no palco de um grande espetáculo. As sacadas das casas da Rua de São José eram iluminadas e serviam de camarotes para as pessoas dançarem e apreciarem o desfile dos blocos.
O concurso do melhor clube acontecia nessa rua, ficando os juízes na sacada da Associação Comercial. A taça do campeão era entregue ali mesmo. Os carros alegóricos eram tão altos que uma rainha recebeu o troféu de cima do cavalo onde ia montada sobre o caminhão.
Em vários pontos da rua se apresentavam bandas tocando marchinhas de carnaval. Uma ficava perto do Tóffolo, outra no Largo da Alegria , outra perto do cinema e assim ao longo do trajeto por onde desfilavam os clubes e cordões, dando oportunidade a todos de dançar e brincar.
Em Ouro Preto havia vários carnavalescos, homens que gostavam da diversão sadia e criativa que era o carnaval dos anos 30 e 40. Entre eles estavam, além de Juvenal Santos, o Eugênio Diogo, Wilson Guimarães, Wilson Carvalho, Agostinho Cancela, Zé Vovô. Esses eram os verdadeiros senhores do carnaval que tudo faziam pelo prazer da alegria.
*Angela Xavier é historiadora, autora do livro "Tesouros, Fantasmas e Lendas de Ouro Preto"