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O tesouro do Tiradentes
Angela Xavier
angelaxbr@yahoo.com.br
Após a Inconfidência Mineira, a casa onde viveu Tiradentes foi demolida por ordem de D. Maria I. O terreno foi salgado, e nada mais deveria ser construído no local.
Muitos anos se passaram e Tiradentes, de traidor, virou herói. Eram novos tempos, 1928, e uma casa estava sendo construída no local da antiga casa do Tiradentes, para ser a sede da Associação Comercial de Ouro Preto.
Zé Salame trabalhava como ajudante de pedreiro. Ele era um homem pacato, de fala macia que gostava de se vestir a moda do faroeste e, às vezes, gostava de fazer benzeduras.
Retirava ele, o entulho do terreno junto a um paredão muito antigo que existia ao fundo do terreno quando, subitamente, aquele paredão desmoronou e, no meio das pedras que rolaram pelo chão, apareceu um surrão de couro.
Zé Salame tratou de abri-lo e viu, estarrecido, um verdadeiro tesouro. Eram barras de ouro, além de moedas e documentos muito antigos. Ele guardou de novo aquela preciosidade e esperou anoitecer.
Noite alta, ele saiu de casa e, cautelosamente, voltou ao local onde havia escondido o surrão. Pegou o surrão de couro e correu para casa. Levou seu tesouro e colocou debaixo da cama. Ele considerava-se um escolhido de Deus, um afortunado. Desse dia em diante, passou a pagar com moedas de ouro por tudo que comprava.
Perto do Largo do Rosário, havia um português, dono de um desses armazéns que vendem um pouco de tudo. Era lá onde o Zé Salame ia comprar mantimentos e tomar sua cachaça, pagando sempre com moedas de ouro. O português recebia como se fossem moedas comuns, não falava nada e foi juntando uma verdadeira fortuna. Zé Salame não tinha noção do valor do tesouro que havia encontrado. Dizem que o português voltou para sua terra e comprou uma boa casa, estabelecendo por lá o seu comércio. Graças às moedas de ouro do ingênuo Zé Salame.
Certa vez, ele meteu-se numa briga e acertou um dos implicados no olho com uma espingarda de chumbinho. O ferimento foi tratado, o rapaz ficou curado, mas fez questão de ir à delegacia e dar queixa do seu agressor. A polícia passou a procurá-lo por toda parte. Zé Salame, que de bobo não tinha nada, desapareceu.
Passou um tempo e ele, acreditando estar tudo em paz, voltou para casa. Triste engano. Um dia estava ele em casa, bem tranqüilo, em companhia de sua mãe, quando a casa foi invadida por policiais. Junto estava também o delegado dando-lhe ordem de prisão.
A mãe de Zé Salame saiu em sua defesa. Disse que aquele ouro não havia sido roubado e sim achado em um velho paredão no local onde seu filho trabalhava. E ele não podia ser preso por isso. Os policiais, atônitos, perceberam que uma barra enorme de ouro servia para segurar a porta da rua. Seu susto não parou aí, pois a inocente velhinha trouxe o surrão ainda cheio de ouro e mostrou aos policiais. Ela havia queimado alguns papéis que estavam junto ao ouro, porque não conseguia ler os escritos nem entender os desenhos. Os papéis eram muito velhos e grossos, parecendo cascas de laranja.
O delegado havia entrado na casa do Zé Salame para procurar uma coisa e achou outra bem diferente. Mas, o certo é que, depois de tudo, o Zé Salame não foi preso, mas ficou sem o seu tesouro.
Foto: Prédio onde funciona a Associação Comercial de Ouro Preto, na Rua São José.
*Angela Xavier é historiadora, autora do livro "Tesouros, Fantasmas e Lendas de Ouro Preto".