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Maio
Por Angela Xavier
angelaxbr@yahoo.com.br


Maio é o mês escolhido pela Igreja Católica como o Mês de Maria, a mãe de Jesus. Também nesse mês se comemora o dia das Mães. Durante todo o mês se vêm anjinhos coroando Nossa Senhora. Talvez por essas razões, a maioria dos casamentos se realiza nesse mês. As noivas se esmeram nos preparativos, na roupa e na festa para a qual são convidas as famílias dos noivos e os amigos. É, até hoje, um grande momento social. Antigamente, o casamento era a maior glória da vida de uma mulher. Ela vivia em casa sem possibilidade alguma na sociedade, não estudava, não trabalhava, nunca tinha dinheiro. Deveria aprender a costurar, bordar, cozinhar, cuidar da casa. Ler, apenas livros de reza e receita. Ela não sabia de nada do mundo nem do que acontecia ao seu redor. E nessa vida tão reduzida de possibilidades, o ideal máximo que poderia almejar, era o casamento. Casar, com um moço de boa posição social, bonito e, melhor ainda, que a amasse. Encontrar o amor era o sonho de todas. Então, depois de se casar com o seu príncipe encantado, poderia ser mãe e administrar uma casa. Teria um lugar de destaque na sociedade e freqüentaria as festas e eventos sociais ao lado do marido, ganhando o respeito de todos. Não se casar era sinônimo de ficar para titia. Cuidar dos pais velhinhos e dos sobrinhos. Ir secando até morrer sozinha. Esse era o destino mais temido pelas moças do início do século XX para trás. As duas grandes guerras mundiais mudaram esse quadro e a vida das mulheres. Mas estamos focadas no tempo anterior às guerras. Acredito, que devido a essas circunstâncias vividas pelas mulheres, muitas tragédias aconteciam nos lares de então. Uma moça era obrigada pelos pais a se casar com um pretendente escolhido por eles o que, muitas vezes, fazia dela, o ser mais infeliz do mundo. Muitas amavam quem não podiam amar e precisavam abafar esse sentimento forte e arrasador. Muitos médicos eram chamados para curar moças febris que diagnosticavam como mal de amor.

 

Não consegui encontrar histórias de amor com final feliz na Vila Rica do século XVIII, nem na Imperial cidade de Ouro Preto do século XIX, menos ainda na primeira metade do século XX na cidade de Ouro Preto. Em compensação, encontrei muitas histórias de mulheres de branco que aparecem para desavisados nas madrugadas escuras e frias. Talvez sejam as almas de belas donzelas que se foram dessa vida sem ter realizado seu sonho de amor. Vamos relatar algumas dessas histórias que correm de boca em boca.   

                                         

Uma vez um soldado ia passeando pelas ruas no seu dia de folga, vestido à paisana com muito capricho. Era costume as moças passearem pelas ruas enquanto os rapazes ficavam parados flertando com elas. Se a moça correspondia às olhadas o rapaz seguia ao seu lado, pedia para acompanhá-la e muitas vezes, era o começo de um namoro. O jovem soldado estava com esperanças de encontrar uma bela moça e se divertir um pouco ou, quem sabe, até namorar. Ele estava aberto para qualquer coisa.

 

Tomou uma cachacinha num boteco da Rua de São José e ia seguindo descontraído pela Ponte dos Contos quando percebeu que já não havia muitas pessoas na rua. Olhou o relógio e já era meia noite. De repente ele viu uma moça, toda de branco, seguindo sozinha do outro lado da rua. Animado, ele se aproximou. Ela era muito bonita e sorriu para ele. Aquela acolhida era muito mais do que ele poderia esperar. Ele a acompanhou, observando a alvura de sua pele, a transparência do seu vestido que voava ao vento, na noite fria. Ela não usava agasalho e parecia não sentir frio. Ele ia andando a seu lado, cada vez mais fascinado pela bela donzela.

 

Chegando ao final da rua, ele perguntou se podia acompanhá-la até a sua casa. Ela consentiu, foi subindo pela Rua das Flores e depois seguiu para o lado da Igreja das Mercês de Cima. O jovem soldado a acompanhava solícito e encantado. Já estava até fazendo planos de encontrá-la novamente. Agora tudo seria mais fácil, porque ele saberia onde ela morava.

 

Os dois caminharam até próximo à Igreja de São Francisco de Paula. Aquele local é muito ermo, não se vê ninguém e é muito escuro. A jovem virou a curva e seguiu em direção à igreja. O soldado a acompanhava. No meio do caminho, a jovem parou e lhe acenou com um adeus. O soldado, apavorado, viu que ela estava diante do portão do cemitério o qual transpôs, entrando na casa dos mortos.

 

O soldado acordou do seu sonho ao ser encontrado ali na manhã seguinte, meio esquecido e atordoado, pelo zelador da igreja, que sempre chegava às cinco horas em ponto.

 

Muitos já viram essa moça de branco andando por ali, por isso evitam passar naquele local à noite.

 

*Adaptado do livro “Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto”


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