Drogas, RPG, lágrimas e ainda muito mistério no Fórum de Ouro Preto


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Texto e Foto - Crédito: Laura Godoy

Foto: Camila e seu advogado.

Tudo aconteceu naquela noite de outubro de 2001. E foi se tornando obscuro: o crime, os fatos, o passar do tempo. Naquele dia 14, era para os moradores de Ouro Preto perderem a hora. Afinal, era domingo, em plena mudança de horário de verão. Mas a notícia da menina assassinada no cemitério das Mercês de Cima correu as casas logo cedo.

 

Oito anos depois, o Fórum da cidade está lotado. Todos querem saber se o crime da estudante Aline Silveira Soares, morta brutalmente naquele dia, vai ser, finalmente, desvendado.  Estão em julgamento, desde 1º de julho, a prima da vitima, Camila Dolabella, de 26 anos, Édson Poloni Aguiar, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes, todos hoje com 27 anos, moradores da extinta República Sonata.

 

Em dois dias, vinte e duas pessoas, entre testemunhas e informantes, foram ouvidas na frente de todos: parentes de Aline e dos acusados, a dona de casa do Padre Faria, o guia turístico da praça Tiradentes, os estudantes de Direito, a imprensa, os advogados, os curiosos, o Ministério Público e a juíza.

 

Aos poucos, cada um chega a uma conclusão e cochicha com o colega do lado, mas a decisão final será deles: o júri composto por sete homens da cidade.

 

A acusação

 

Primeiro, foram as testemunhas de acusação que falaram. Mas apenas no sexto depoimento, por volta das 21h de quarta-feira, surgiu a menção ao Role Playing Game que, segundo o MP, teria motivado o crime. Erval de Azevedo, amigo de Aline e Camila, disse ter saído com a última logo após o enterro da vítima para fumar maconha. “Ali ela me disse que tinha jogado RPG em Ouro Preto e que parecia que ainda estava dentro do jogo”, declarou. Erval assumiu ter se submetido a tratamento contra o vício em álcool e drogas.

 

Nesse dois de julho, foi a vez da família de Aline falar. Todos como informantes, já que, por causa do parentesco, não podem ser considerados testemunhas. Quando a mãe de Aline, a professora Maria José da Silveira, entrou no tribunal, fez-se silêncio. Afinal, independente de quem tenha sido o culpado, ela perdeu a filha. Sobre Camila, Maria José tem suas conclusões. “Tudo para ela era a mãe, que morreu quando Camila era menina. Desde então, ela se revoltou contra a família do pai, meu irmão, que era um ‘Dom Juan’ e parece que conseguiu se vingar. Aline foi várias vezes para Guarapari para tentar ajudar a prima, que só chorava”, falou.

 

Muito emocionada, a professora contou ainda que a filha ligou de Ouro Preto para ela. “Mãe, esse lugar é maravilhoso e está tudo bem”, teriam sido as últimas palavras trocadas entre as duas.

 

Tia da vítima e da acusada, dona Odete Silveira morou com Camila e disse que ela era tranquila, mas “trocava o dia pela noite” quando morava em Guarapari.

 

Chamou a atenção o fato do nome de Maicon ter sido citado poucas vezes, o que deixou ainda mais confiante a noiva e a mãe do rapaz, ali presentes.

 

Drogas

 

O advogado de Maicon Fernandes, Luís Carlos Bento, afirmou que um laudo apontou resquícios de maconha e álcool no corpo da vítima. E é essa a linha que os advogados de defesa têm seguido.

 

Durante o depoimento da mãe de Aline, o advogado de Édson e Cassiano, Guilherme Marinho, leu uma carta anônima que diz que a vítima teria vindo para Ouro Preto com 1,5kg de maconha que seria entregue por ela a um traficante durante a festa do Doze.

 

Para Maria José, essa é uma tentativa de desviar o foco do caso. Já a promotora Luiza Helena Trócilo foi firme em dizer que, se existe um quinto culpado “é certamente o RPG”.

 

 

Defesa

 

As testemunhas de defesa foram unânimes. Quatro jovens que conviveram de perto com os acusados Édson Poloni, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes, definiram o primeiro como “extrovertido e alegre”, o segundo como “de coração grande” e o terceiro como “ estudioso, responsável e ótima pessoa”. Todas disseram que frequentavam a Sonata e que nunca viram nenhum sinal de satanismo ou vampirismo na república.

 

Sobre a polêmica frase “Alugam-se Corpos”, que estava pichada em um dos muros da república, elas disseram que era uma brincadeira dos então estudantes. “O aluguel estava ficando caro e eles escreveram isso dizendo que teriam que alugar seus corpos para conseguir o dinheiro, mas brincando, como todo jovem faz”, disse Maíra Palma, ex-namorada de Maicon e amiga de Cassiano e Édson.

 

Porém, o depoimento mais esperado foi o da diretora do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Ufop, Guiomar de Grammont. Ela foi a última falar. Guiomar se emocionou enquanto afirmava a inocência dos três rapazes, dos quais foi professora. Com ela, as mães de Maicon e Cassiano, que se tornaram muito amigas depois do crime, também choraram. A professora disse que a comove o fato dos acusados serem meninos talentosos, de famílias simples e que tiveram a vida pessoal e acadêmica interrompida. 

 

“Cassiano chegou a ser espancado em Ouro Preto, mas disse que queria ficar até o fim, para provar a inocência. Ele não conseguiu, pois a república foi apedrejada. Eles eram pessoas de dentro da minha casa, que conviveram com os meus filhos e posso dizer com toda certeza: um livro ou um jogo não leva ninguém a matar uma pessoa”, declarou.

 

Chamou a atenção o fato do advogado de Camila Dolabella, Rogério del Corsi, não ter arrolado nenhuma testemunha de defesa.

 

Próximos passos

 

A sessão foi suspensa por volta das 20h30 de ontem e recomeça hoje às 12h. Os jurados foram para um hotel, totalmente isolados e solicitaram à juíza autorização para ver um jogo de futebol ontem à noite. Talvez esse momento de descontração tenha ajudado a clarear o julgamento que eles fazem sobre o caso, que parece se tornar ainda mais misterioso a cada momento.

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03/07/2009 11:48:15


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