Caso Aline – Acusados afirmam: somos inocentes
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Texto - Crédito: Laura Godoy
Foto Eduardo Tropia
A fila foi grande para entrar no Fórum de Ouro Preto nessa sexta-feira, dia 3 de julho. Afinal, era o terceiro dia do julgamento do caso Aline e, finalmente, todos teriam a chance de ouvir os quatro acusados do brutal assassinato da estudante.
Apesar de ser o dia mais cheio, foi o mais silencioso na sala do Tribunal de Justiça. Como o uso de microfone foi proibido (pois um depoente não pode escutar o que o outro diz), ninguém queria perder um detalhe sequer das respostas dadas por Camila Dolabella, de 26 anos, prima da vítima, Édson Poloni Aguiar, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes, todos hoje com 27 anos, moradores da extinta República Sonata.
O Ministério Público fez poucas perguntas e não apresentou aos réus nenhuma prova ou documento que os deixasse sem resposta. Mas em entrevista, a promotora Luiza Helena Trócilo afirmou que “nunca levaria ninguém a julgamento sem ter certeza”. Por isso, a expectative é grande para este sábado, dia 4 de julho, quando começa, às 13h, o debate entre as partes e quando serão expostos os indícios contra cada um dos acusados.
No fim do dia, quando terminaram os interrogatórios, a mãe de Aline Silveira Soares, a professora Maria José Silveira, apresentava uma aparência cansada. “Para mim, independente do resultado, só deste julgamento ter acontecido já é uma vitória”, ressaltou.
O interrogatório
Edson Poloni Aguiar
De camisa azul, Edson foi o primeiro a ser interrogado. Primeiro, ele ouviu o depoimento prestado em abril de 2005 à juiza Lúcia de Fátima Magalhães e confirmou todos os fatos. Estudante de Direção Teatral na Ufop em 2001, hoje ele trabalha como vendedor em um shopping de Vitória.
Sobre os hematomas apresentados na época do crime, ele repetiu a versão que conta nos autos: teria caído de uma escada e sofrido agressão por parte de um policial militar durante uma revista no bairro Rosário.
Ele admitiu conhecer RPG e chegou a explicar as regras. Falou também sobre já ter jogado em Vitória, mas disse que não em Ouro Preto. “ Estava tentando entrar em um grupo da república Marquês de Sade, mas não deu tempo”, destacou.
Falou ainda que convidou alguns “hippies” para se hospedarem na Sonata durante a festa, mas que eles acabaram só deixando as bagagens lá e passando às vezes para pegar material de confecção de artesanato.
Edson alegou inocência e, virado para os jurados, chorou muito. “ Eu sei o que a mãe de Aline está passando e também acho que a justiça precisa ser feita, mas não tenho nada a ver com esse caso”, afirmou.
Cassiano Inácio Garcia
Cassiano veio a Ouro Preto acompanhado pela mãe, Maria Auxiliadora Garcia, presente durante todo o julgamento do filho único. Assim como Edson, confirmou o depoimento prestado anteriormente.
Ele disse que tentou continuar morando em Ouro Preto após o assassinato, mas não foi possível. “Fui agredido na rua Direita por alguns estudantes e depois ficou difícil continuar na cidade”, relatou.
Cassiano também se disse completamente inocente e que nunca viu ou soube de nenhum exame que comprovasse sua participação no crime. “Se estou sentado aqui hoje é por causa da incompetência da polícia e do sensacionalismo feito pela imprensa”, falou.
O réu contou que a polícia só esteve na República Sonata cinco dias após o crime e fez uma rápida revista. Sobre livros de RPG e armas brancas encontradas pela polícia que seriam dele, segundo o MP, Cassiano disse não reconhecer nenhum. Afirmou que em seu quarto tinha sim um poster do filme O Corvo, com Brandon Lee, mas que retirou quando Camila ficou lá após o assassinato, enquanto esperava o pai, “para não causar nenhum mal estar nela”.
Ele relatou o momento em que foi preso e cedeu sangue para um exame toxicológico e de DNA, que deu negativo para uso de drogas e alcool, “mas acho que não usaram para mais nada”. Cassiano hoje trabalha como agricultor.
Maicon Fernandes
Tímido, mas muito seguro, Maicon Fernandes foi o que menos falou. Atualmente, ele se prepara para formar em Composição e Regência na Universidade Estadual Paulista, a Unesp.
Ele disse que não consegue entender do que é acusado, pois a denúncia não aponta especificamente a participação que cada um teria no crime. “Desde o início sempre colaboramos com a polícia, mas sou completamente inocente e não entendo porque sou acusado”.
Maicon afirmou que não bebe e que esteve doente durante aquela festa do Doze de 2001. Na noite do crime, teria ido até a rua comer um lanche com Cassiano e que, em seguida, voltaram para a casa, onde Camila já estava.
“Depois do crime, nunca fui coagido por ninguém de Ouro Preto. Porém, percebia que sempre tinham alguns policiais à paisana me observando. Mas não deixei a cidade por causa disso. Foi por insatisfação com o curso mesmo”, afirmou.
Quando a juiza lhe concedeu a palavra, ele falou que “ com a família, passou por momentos de constrangimento extremo e indignação e que sofreram bastante, mas que espera justiça”.
Camila Dolabella
O interrogatório de Camila foi o mais longo e também o mais esperado. Ela entrou na sala do juri cabisbaixa, mas foi ficando mais à vontade para falar à medida em que era questionada. Assim como os outros, confirmou os depoimentos anteriores. Mas fez uma ressalva: teria sido coagida pelo delegado Adauto Corrêa em Manhumirim.
Segundo ela, durante o depoimento prestado na cidade, quando estava em companhia apenas do pai, ela quis falar sobre Fabrício Gomes, um rapaz que Aline já conhecia quando elas vieram para Ouro Preto e que teria sido visto com a blusa suja de sangue um dia após o crime. Fabrício teria envolvimento com drogas na cidade. “Nós nos encontramos com ele aqui, mas quando fui dar detalhes sobre isso, o delegado disse que os verdadeiros culpados já estavam presos e que eram os meninos da Sonata. Só depois fui saber que eles estavam em liberdade e que ele havia mentido”, respondeu.
Camila admitiu que ela e Aline fumaram maconha na festa do Doze e que se perdeu da prima durante um churrasco na república Necrotério. “Quando olhei ela já não estava lá. Me falaram que ela tinha saído, procurei pela rua e depois voltei para a república, achando que ela já poderia estar dormindo. Depois não saí mais”.
Sobre o RPG, Camila disse que conhece “só de ler” e que a Biblia Satânica achada em seu computador estaria lá porque sempre estudou mitologia e que ali os
“deuses são citados como demônios nórdicos, então queria entender o que era”.
Hoje, a acusada cursa Letras e Literatura Brasileira e se emocionou ao relatar que todos da sala em que estuda sabem do caso e que “o professor tinha liberado a sala para que pudessem orar por mim hoje”.
Fim do interrogatório
O interrogatório terminou por volta das 22h. Além de presenciar os depoimentos, Maria José, mãe de Aline, teve outra surpresa. Dois bancos à frente ao que ocupava no forum, estava Orfano Silveira, seu irmão e pai de Camila. “Não nos víamos há muitos anos. Me emocionei, porque ele está muito parecido com meu pai”, afirmou.
Independente de quem tenha cometido o crime, quem acompanha o julgamento tem uma certeza: nunca mais todas as famílias envolvidas serão as mesmas.
04/07/2009 12:40:36