Caso Aline: Réus são absolvidos pelo júri
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Texto - Laura Godoy que cobriu o julgamento com exclusividade para o portal de informação www.ouropreto.com.br
Fotos Eduardo Tropia
O dia já tinha amanhecido em Ouro Preto, quando Édson Poloni Lobo de Aguiar deixou o Fórum da cidade, pela porta da frente, cantarolando um trecho de Here Comes The Sun, dos Beatles, que no refrão chama o sol e diz que está tudo bem. Na verdade, o céu deste domingo, 5 de julho, está meio nublado por aqui, mas o sol realmente apareceu para ele, Cassiano Inácio Garcia, Maicon Fernandes e Camila Dolabella.
Os quatro jovens acusados pelo assassinato da estudante Aline Soares Silveira, de 18 anos, em 2001, foram absolvidos pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais após quatro dias de julgamento, um dos mais longos da história de Ouro Preto. Depois de ouvir testemunhas, defesa, acusação e os próprios réus, os sete jurados decidiram que os réus “não concorrerem, de qualquer forma, para a prática do crime", segundo a sentença lida pela juíza Lúcia de Fátima Magalhães, às 5h15 da manhã deste domingo.
O debate entre as partes começou por volta das 14h. O Ministério Público insistiu na relação do crime com o Role Playing Game – RPG – e com rituais satânicos e macabros. “Esses jogos que falam de demônios não são podem ser leitura saudável. Sei que muitas escolas até utilizam, mas podem acontecer certos distúrbios sim. Por isso, peço muito que os senhores (jurados) rezem bastante antes de decidir e peçam a Deus para iluminá-los”, disse a promotora Luiza Helena Trócilo.
Porém, de acordo com os advogados de defesa, houve falha da polícia e nenhuma prova concreta foi apresentada contra os réus. Não foram feitos, por exemplo, exames de DNA e de sangue que ligassem a vítima aos acusados. “Quero que a senhora promotora me fale o que cada um fez, como o fez e como eles estão ligados aos fatos, porque até agora isso não foi esclarecido. Ninguém pode ser condenado simplesmente por ler algum livro ou por ter hospedado alguém”, arguiu o advogado de defesa de Edson e Cassiano, Guilherme Marinho.
Já Luis Carlos Bento, advogado de Maicon, leu os laudos da perícia do local e da necropsia.do corpo. “Aqui fica claro que Aline entrou no cemitério com apenas uma pessoa e não foi obrigada a isso. Ela também manteve relações sexuais dentro do local, mas por vontade própria, já que não foi encontrado qualquer indício de esperma no corpo da vitima. Além disso, os passos da vitima tinham que ter sidos investigados desde a república Necrotério, onde ela se perdeu das primas, o que não foi feito”, afirmou. De acordo com autópsia, a causa da morte de Aline teria sido esgorjamento, um corte profundo no pescoço. O advogado citou para os jurados o caso dos irmãos Naves moradores de Araguari, em Minas, que, na época do Estado Novo foram condenados sem provas por um crime que não cometeram.
Rogério del Corsi, advogado de Camila Dolabella também argumentou com base no o artigo 41 do Código Penal, que diz que “a denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo”. Ele afirmou novamente que Camila foi coagida pelo então delegado da época, Adauto Corrêa, que teria “inventado” a história do RPG para tirar o foco de outras acusações feitas contra o próprio, e o trabalho do promotor Edvaldo Pereira, que não ofereceu denúncia anteriormente por achar que as provas não eram suficientes.
Na oportunidade da réplica, a acusação não conseguiu responder exatamente às perguntas feitas por Guilherme Marinho, citadas no quarto parágrafo desta matéria. Sendo assim, os jurados decidiram pela absolvição.
Reações
A mãe de Aline, Maria José Silveira, acompanhou todo o julgamento. Mesmo nos momentos mais difíceis, como quando a acusação apresentou fotos da filha morta, ela se manteve presente. No final, seu esgotamento era visível. Após a leitura da sentença, ela afirmou que “o resultado não era o que desejava, mas que não ia recorrer porque já estava muito cansada”.
Por outro lado, o pai de Edson, o escrivão aposentado da Policia Civil, Edson Lobo de Aguiar, disse que vai processar o Estado de Minas Gerais “por toda injustiça cometida contra o filho”. “Não importa se vai ser o bisneto dele quem vai receber a indenização, mas quero que a justiça seja feita”, disse. O filho também falou que vai correr atrás de seus direitos, mas que a partir de agora começa uma vida nova. “Não sinto alívio total porque a pessoa que fez isso ainda não foi presa. Mas a verdade apareceu, graças à Deus. Mas não queremos que isso fique impune. A pessoa que de verdade que fez esse crime deve aparecer”, declarou.
Cassiano e Maicon, que moraram por mais tempo com Ouro Preto, comemoraram muito com as mães, que estavam bastante emocionadas, e com amigos que fizeram na cidade e que acompanharam todo o julgamento. Maicon, que está casado há pouco tempo, disse que a lição que tira de tudo que aconteceu é que aprendeu a “não confiar na policia”. “Sempre segui a minha vida e não guardo mágoa alguma de Ouro Preto”, falou.
Camila, prima de Aline, também estava muito feliz, e abraçou o pai assim que saiu a sentença. “Sempre acreditei na inocência da minha filha”, disse Orfano da Silveira.
A comunidade de Ouro Preto esteve presente até o final do julgamento. Mas, infelizmente, uma pergunta ficou sem resposta: afinal, quem matou Aline? Mais um mistério que entra para a história da cidade.
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05/07/2009 06:16:15